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| por Daniela Landin |

Estudante do curso de Licenciatura em Arte-Teatro, Instituto de Artes – UNESP.
Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero.


Crítica do espetáculo "Brasil, quem foi que te pariu?"
IV MOSTRA LINO ROJAS DE TEATRO DE RUA

Brasil, quem foi que te pariu?Um olhar para as histórias que constituem os brasis

Alguém que se envolve com determinado fenômeno teatral no espaço público, atuando diretamente ou participando de outras formas – se na rua somos todos artistas... –, é convidado, em primeiro lugar, a aguçar os sentidos para se lançar a uma experiência sensorial. Às camadas de significado que o próprio espetáculo de rua propõe são somadas aquelas que o local de apresentação descortina, oferecendo possibilidades inúmeras de leitura e experimentação no que se refere a uma inserção na manifestação cênica. Em muitos momentos, a intervenção realizada pelo espetáculo traz luz a características do espaço e, em tantos outros, é o ambiente que, com seus elementos paradoxais, evidencia as contradições do próprio trabalho a ser apresentado. A síntese que é produzida a partir desse embate – espaço e cena – parece ser inicialmente sentida pelo corpo, percebida pelos sentidos para ser depois decantada, elaborada. Repleta de nuances sensoriais foi a experiência proporcionada pelo Brasil, quem foi que te pariu?, da Trupe Artemanha, naquele início de tarde do Vale do Anhangabaú.
A percepção de quem se propôs a ler aquele evento de teatralidade foi tocada pelo primeiro indício da intervenção: no chão, um grande quadrado verde abrigava uma bola azul no seu interior, numa alusão à bandeira brasileira. Estávamos na eminência de experenciar um trabalho que pensa o país. No entanto, o aspecto desse elemento cenográfico sugeria que o ponto de vista escolhido não era o do discurso oficial. A “bandeira” que delimitava o espaço cênico não possuía as habituais estrelas e tampouco o questionável “ordem e progresso”. Foi então que um cortejo passou a integrar aquele universo, rasgando a sonoridade do local, destacando-se em meio a tanta polifonia, a tanta polissemia.
O prólogo se dá por meio da explicitação do que vai ocorrer dali por diante: uma narrativa que dê conta da história do Brasil. Mas não a História registrada nos livros e que é reproduzida de acordo com os interesses de quem a escreveu. A proposição é a de que a história nacional seja contada por um viés popular e não a partir da óptica dos vencedores. Essa apresentação é feita por dois arlequins-narradores que vão pontuar com comentários burlescos todo o espetáculo. O legado da commedia dell’arte se presentifica com força na figura do arlequim, um tipo de servo paspalhão, rudimento do clown.
A performance dos atores, caracterizada por trabalho corporal expressivo e ritmo sincrônico impresso no jogo, assim como os efeitos dos elementos da encenação, causavam impacto no público. Uma das respostas mais contundentes não demora a chegar e surge em forma de ruído revelador do espaço coletivo. Vozes que convergem. “Teatro de rua é melhor que teatro de rico. Dá de mil a zero”. Essa foi a fala de uma das pessoas do público – um homem corpulento, verborrágico, muito à vontade em suas inserções no espetáculo de modo a comunicar um domínio sobre o espaço e a consciência de um pertencimento. Além disso, veiculador de um discurso marcadamente surrealista e pautado por um caráter agressivo... Continue lendo...